Por um acaso, um remoto acaso, alguém aqui vem. Demora muito, demora pouco, não importa. Demora o suficiente para perceber a ingenuidade deste blogue.

Drama silencioso.

Há quase cem anos Wenceslau de Moraes produziu o texto abaixo. O drama da fome vive-se no Portugal de hoje. As causas!? Ora! São sobejamente conhecidas, no íntimo de nós não há quem não as identifique.

AS CRIANÇAS E OS PARDAIS


     O arroz, que é o pão dos Japoneses, isto é, a base do seu alimento quotidiano, tem subido ultimamente em preço...
     Os jornais relatam frequentes cenas de miséria, de angústia. No entretanto, mesmo nos tristes lances de fome, o japonês é, em geral, digno, respeitador das conveniências e mesmo gracioso. Já os samurais dos tempos idos retinham este provérbio:  - «Quando se tem a barriga vazia, palitam-se os dentes com um grande palito.»
     Agora, um exemplo destes dias. Informa um jornal que, há pouco, em consequência da extraordinária carestia do arroz, treze crianças da escola elementar de Nagoka, no distrito de Niigata, foram encontradas, levando para a escola, vazias, as latinhas do seu rancho.
     Ora, não achais graciosa esta tragédia, de uma graça que faz vir as lágrimas aos olhos?... No Japão, os pequenitos e as pequenitas vão pela manhã para a escola, muito cedo, em grupos alegres e chilreadores; cada qual leva na mão uma modesta latinha de folha ou alumínio, envolta numa bolsa de rede, contendo a refeição do meio-dia -- arroz cozido e um pedacito de nabo de salmoira. Pois, em Nagoka, faltou a algumas famílias o dinheiro para prover a este repasto. Pouco importou. As criancinhas continuaram a ir à escola, em grupos alegres e chilreadores, não esquecendo nenhum dos seus hábitos, levando numa das mãos a ardósia e os livrinhos, e na outra mão a latinha do lanche... mas sem nada.
     Fingiam que comiam... Só me espanto de que os pardais, que as viam ir pelos caminhos, continuassem a cantar... ou chorariam eles a cantar?...
(Cartas, VI, 100-101. Wenceslau de Moraes)

Vislumbres do fugaz - as flores incultas

Entre as plantas existirão por certo outras percepções que não aquelas definidas pelos nossos sentidos, sempre transcendentes à nossa compreensão. Podemos apenas maravilharmo-nos com o que serão efeitos meramente secundários das suas manifestações. Deleitemo-nos portanto.

Wenceslau de Moraes

Nos escritos do Português Wenceslau de Moraes (1855 - 1929), Cônsul de Portugal no Japão, transparece todo um amor por este povo. Aí, casa Japonesa é descrita como se segue: ”- Feita abstracção do que é movível, transportável, do que se tira, do que se põe, do que se guarda, a casa japonesa fica pouco mais ou menos reduzida ao simples telhado, erguido sobre quatro vigas de madeira, telhado amplo, alambazado, em grandes caneluras formadas pelas telhas negras. O resto não passa de acessórios, de corrediças, de grades, de delicados xadrezes de pinho cobertos de papel, e tudo isto girando docemente em ranhuras, desaparecendo a um leve gesto de mão, ora abrindo o recinto aos quatro ventos, ora fechando-o hermeticamente, dando-lhe a forma de um caixote .”
(lido em http://www.webdpix.com/Japao.pdf)

Uma tarde com o senhor Wenceslau

Ando a ler a uma Antologia de Wenceslau de Moraes que me está a fascinar.
Dos muitos excertos que li esta tarde quero partilhar este.
O meu jantar de Festa (O-Yoné e Ko-Haru, 86-87.)
Bem. Volto a considerar o caso do meu jantar de festa.
Parti carvão, acendi o lume, cozi o arroz, que é o pão de Tokushima, como do Japão inteiro, fiz chá e preparei o meu repasto. E quereis saber qual ele foi? A minha irmã, pura alfacinha, como eu sou puro alfacinha (com mágoa faço a confissão), iniciou-se há alguns anos, tardiamente embora, mas com palpitante entusiasmo, na vida provinciana, nos costumes rurais, na simplicidade das aldeias. De tudo aquilo me fala em suas cartas, enternecida. Numa das últimas recebidas, enviava-me a receita de cozinhar o caldo-verde. Pois foi o caldo-verde que eu cozinhei naquele dia, pela primeira vez. Adicionei à refeição umas sardinhitas, de umas que se vendem por aqui, do tamanho de gafanhotos, secas ao sol, as quais cozi em água e temperei com açúcar, à moda japonesa. Nada mais.
Quando saboreei o meu jantar, de joelhos sobre a esteira, sozinho com o meu gato, observei que o gato dava mostras de grande predilecção pelas sardinhas, mas desprezou o caldo-verde; questão de educação. Sozinho, disse eu; para ser mais verdadeiro, devo antes registar que então me acompanhavam, como sempre me acompanham, mas naquele dia festivo mais intensas, as recordações da minha irmã ausente e as recordações das minhas mortas. A certa altura surpreendi-me mesmo a sorrir, correspondendo por este modo a certos sorrisos que imaginei virem de longe e serem-me dirigidos: - sorrisos, ligeiramente motejadores, das minhas mortas, O-Yoné e Ko_Haru, quando eu sorvia o caldo-verde…
Ah, solidão! Vasto campo ressequido, povoado de espectros…
E ainda este,
Dia feliz!...
Chegou-me esta manhã, enviado de Kobe por uma pessoa amável, um pequeno volume, contendo… uma gatinha!...
É linda a gatinha, da cor da sua sombra, isto é, toda preta. Parece um urso, em miniatura. É vivo, e saltitante, o demónico!... Dá-se ainda a interessante circunstância de não haver em Tokushima, que me conste, gatos pretos; vem constituir uma raridade no distrito!...
Amiga: estás disposta a seres a minha companheira em Tokushima? A alegrares com o teu estranho olhar verde, com as carícias travessas da tua patinha de veludo, a minha decrepitude e a minha insipidez?... Se estás, fica. Eu ainda apenas te relanceei… e já te quero…
(O Bom-Odori em Tokushima, 277.)

(transcrição de um post do blogue: http://muana.livejournal.com/12236.html#comments )

Lubango - Huíla - Angola


2009 (foto do Xico Sarmento)



Vista da cidade de Sá da Bandeira, actual Lubango.



Planta da cidade de Sá da Bandeira, actual Lubango.

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